Resenha de São Paulo Granulado, por Nádia Sauer

A obra São Paulo Granulado faz uma leitura da cidade que capta o imaginário comum do paulistano, tanto no que se refere ao nosso domínio sobre o que se passa no nosso cotidiano quanto ao controle que temos em relação à tecnologia.

Havia duas formas de contemplar a obra: do lado de fora, pelo painel luminoso da galeria da Fiesp, e do lado de dentro, em um totem com fones de ouvido.

Versão totem de São Paulo Granulado

No totem, via-se com mais abrangência o todo do trabalho. As imagens e sons são correspondentes e, se inicialmente sugerem apenas o caos, ganham coerência na medida em que traduzem os ritmos da cidade a que se referem, desde o doce chilrear dos pássaros, associado ao colorido das árvores, até o som ensurdecedor do trânsito associado a luzes artificiais e ofuscantes; desde o som duro e seco que aparece junto aos prédios, até as vozes que nos cumprimentam de forma amigável apesar de anônima.

A criação sonora é tão relevante para a obra que a exposição na galeria externa perderia o sentido. Perderia, não fossem os sons da Avenida Paulista parecerem seguir ou mesmo ditar o ritmo das imagens de forma tão arbitrária e autoral quanto a própria obra. E, aqui, o expectador pode, também, se sentir autor, uma vez que pode escolher a quais sons dar atenção para cada conjunto de imagens.

O autor, Fernando Falci, está em diálogo com pesquisadores e compositores ligados à Música Visual e ao conceito de Síntese Granular. Para os leigos em relação ao assunto, a compreensão da obra talvez fique mais ligada à interpretação da associação de sons e imagens do que à análise da forma e da estrutura. Claro, quanto menos domínio técnico temos de um assunto, mais restrita a capacidade de análise de uma obra em sua totalidade; no entanto, a considerar o ritmo de vida conhecido do paulistano, há elementos tão corriqueiros que tornam a obra compreensível a quem quer que seja.

Num paralelo com a literatura, a obra faz lembrar o livro O fluxo silencioso das máquinas, de Bruno Zeni. Lá, o silêncio está apenas no próprio ato de leitura, isso porque as “iluminações asfálticas” necessariamente nos fazem ouvir os sons da cidade, da mesma forma como acontece com quem observa a exposição apenas do lado de fora, sem acesso ao totem.

Trânsito, transporte, edifícios, janelas, pessoas, árvores, asfalto. Essas imagens sobrepostas em alta velocidade e de modo aleatório são as mesmas vistas quando nos movimentamos pela cidade. É como se, aquilo que fazemos cotidianamente e já de modo automático – pegar o ônibus, o metrô, ver a cidade com um fone de ouvido enquanto se observa pessoas falando ou reflexos nos vidros do metrô – fosse espelhado em São Paulo Granulado. Essas ações cotidianas passam pelo paulistano de modo tão veloz e escapável, que o que poderia ser um movimento consciente de ir e vir, torna-se também arbitrário, como o faz o programa, desenvolvido pelo autor, ao associar imagens e sons a seu bel prazer. Por outro lado, contemplar essa associação arbitrária da tecnologia faz-nos perceber um trabalho autoral, pensado, arquitetado que, se não elimina a arbitrariedade, deixa entrever as intenções da composição, tirando-nos do automatismo e devolvendo-nos a sensação de controle que sentimos perdida.

Nádia Sauer 04/08/2019

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