Version by FALCI “Hurt” (Trent Reznor)

O trabalho apresentado aqui é uma Obra de Arte Multimodal na qual veiculam texto, pintura, poesia, música, canto, vídeo clipe e interpretação. Para ter a experiência completa, continue lendo antes de assistir o vídeo do YouTube.


PREÂMBULO DE UM MACHUCADO

Foi num fim de semana de março de 2020, depois de concluir a produção de algumas músicas de outros artistas que numa brincadeira eu decidi gravar todos os instrumentos e vozes de uma música para mim. E bem ao acaso essa música foi o HURT, composição de Trent Reznor do Nine Inches Nails, uma banda de rock industrial que se conecta com minha origens góticas. Essa música ganhou o Grammy de Melhor Canção de Rock em 1996 e foi registrada na voz de Johnny Cash em 2002.

Na minha versão, eu gravei piano, violão de aço, baixo fretless, baixo acústico com arco, washboard, prato, caixa, chocalhos e Cajon. Gravei a primeira e a segunda voz. E ai eu comecei a buscar o som no processo de mixagem e de masterização.

Mexe, mexe, mexe. Busca, busca, busca.

Fiquei surpreso em perceber como a partir do mesmo material cada versão chegava em um lugar diferente, até que a hora chegou em algum lugar. E nesse lugar um novo dilema se apresentou. Eu não queria colocar a música no ar a música sem uma imagem, sem um visual. Pensei em luz de velas, pensei em texturas granulares.

Mexe, mexe, mexe. Busca, busca, busca.

Foi então que eu percebi que a busca não era pelo som e nem mesmo pela imagem. O que eu buscava era a apropriação daquele material enquanto artista. HURT fala do vício em drogas injetáveis, algo muito longe da minha realidade. E fala também do distanciamento que alguns tem daqueles que são compulsivos. Então me permitam uma alteração. Eu aqui falo do principalmente do álcool e do cigarro, as duas drogas que mais matam. E foi ai que eu encontrei nos rostos sobrepostos e distorcidos nas pinturas de Francis Bacon a minha inspiração visual. Deixa eu mostrar pra vocês:

Essa distorção visual não é pra quem olha pelo lado de fora, é para quem vê pelo lado de dentro. Não é só visual, é também mental. São duas pinturas em uma: muita gente que está sóbria enxerga quem bebe muito assim, mas também é assim que muita gente que bebe muito acaba enxergando a própria vida e o mundo.

Foi perto do fim do ano que eu me dei conta que no meu dia a dia eu estava sendo machucado e que a cada dia eu me afastava mais dessa dor. Eu me encontrava dentro da canção. A compulsão pelo álcool e pelo cigarro não apenas matam, mas também escurecem e fazem escurecer.

Sentindo estar sempre em segundo plano.

A cada dia o convívio se tornava mais escuro.

Eu me esforçava para sorrir e para fazer sorrir.

Passa natal e passam as férias, mais escuro.

Eu me esforçava para sorrir e para fazer sorrir.

Passam aniversários, escuro.

Eu me esforçava para sorrir e…  basta, chega, uma hora cansa!

Não estou aqui para ser moralista porque, nesse caso, eu seria um falso moralista. Eu bebo, eu fumo, etecetera e tal, eu também me divirto, as vezes até passar mal. Mas onde fica a fronteira entre se divertir e depender? Fronteira que só não é clara quando convém e para quem convém.

Para o dependente é muito simples, existe amigo e inimigo. Essa fronteira sim é clara como o Muro de Berlim. Não pode ser atravessada sem que se leve uma bela de uma bordoada. Os companheiros de copo são os donos da razão. E tudo que se torna um obstáculo é tido como agressão: os amigos que não bebem, a família, o trabalho e a paixão.

E foi assim que o meu habitat se tornou palco de intimidação, de violência e de gritaria. Sempre na intimidade, por uma questão de covardia. Eu estava aqui para ajudar, mas se o outro continua a puxar a corda para baixo, uma hora ela ia arrebentar. O companheiro que existia em mim perdeu a graça e tentou se tornar o cuidador. Isso foi tudo que era preciso para ser taxado de pervertido e de agressor.

A arte nem sempre traz a alegria, neste trabalho eu busco o alerta em forma de poesia. Dedico este trabalho para nós que aproveitamos a quarentena para ter um momento saudável, de desenvolvimento e superação. Também dedico para nós que soubemos dosar a saúde com a diversão. E principalmente para nós que escolhemos detonar com o fígado e o pulmão.

O que a gente precisa é de carinho, um tipo de carinho muito especial, aquele que vem de dentro: o amor próprio.


C2H6O Versão Fumaça

Pela manhã, o cigarro vem antes do beijo de bom dia.
Pela tarde, enquanto dura o vinho não faço amor.
A noite a garrafa seca e o que emerge são os rochedos da raiva.
Transbordo ciúmes, paranoia e ausência de responsabilidade. 

A mais bela paisagem se dilui.
A melhor companhia se esvai.
Perco até mesmo o melhor de mim.

A irritação da ressaca se alterna com o torpor da embriaguez.
Até o ponto em que fico constantemente zangado e distante.

Bebo muito por que a vida perdeu o sentido.
A vida perdeu o sentido porque bebo muito.
Bebo muito porque a vida perdeu o sentido porque bebo muito.
A vida perdeu o sentido porque bebo muito porque a vida perdeu o sentido.
Porra meu! Preciso beber tanto pra deixar de viver em tédio?

E qual sentido percebo na vida... 
...quando os meus sentidos estão sempre entorpecidos?

Aonde estão os outros... 
...quando não consigo sair daqui de dentro de mim?

No fim, o que me resta, quando resta...
...é uma face assombrada...
...e a outra face conformada.


3 comentários sobre “Version by FALCI “Hurt” (Trent Reznor)

  1. Anônimo disse:

    Que trabalho fantástico Fernando, parabéns! Impressionante e comovente, certamente, esse seu trabalho tocará muitas pessoas.

  2. Anônimo disse:

    Fernando
    Adorei o texto!!!
    Simmmm podemos beber, fumar e etc mas sempre respeitando nosso corpo, nosso amor próprio e o outro que está próximo e nos quer bem!!!!
    Beijo
    Fernanda

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s